Muito além do tabuleiro: a patente do Ouija e seus desdobramentos em marcas

Poucos artefatos culturais transitam com tanta naturalidade entre o misticismo popular e a indústria quanto o tabuleiro Ouija. Mais do que um ícone do entretenimento “sobrenatural”, ele também é um caso clássico para entender como patentes, marcas e direitos autorais podem (e devem) trabalhar juntos ao longo do ciclo de vida de um produto.

O que, afinal, foi patenteado?

O Ouija surgiu comercialmente nos Estados Unidos no fim do século XIX, no contexto dos chamados “talking boards” (tabuleiros falantes). O pedido de patente associado ao produto que se tornaria o Ouija é creditado a Elijah J. Bond, concedido no início de 1891, nos EUA. A proteção não recaía sobre “comunicação com espíritos”, evidentemente, mas sobre a solução técnica do jogo: um tabuleiro com letras, números e respostas breves, operado por uma peça móvel (planchette) de baixo atrito, de modo a permitir que participantes, com toques leves, selecionassem símbolos e compusessem mensagens.

Em termos de Propriedade Intelectual:

A patente descrevia o mecanismo e o método de uso (um conjunto funcional: superfície marcada + ponteiro deslizante).

O foco estava na disposição prática que tornava a experiência replicável e “comercializável” como brinquedo/jogo.

Assim como ocorre em várias inovações de entretenimento, o diferencial técnico era modesto, porém suficiente para justificar proteção e criar exclusividade temporária em um mercado nascente.

Importante: patentes não protegem crenças, efeitos metafísicos, “ideias em abstrato” ou “conceitos espirituais”. Protegem soluções técnicas novas, não óbvias e com aplicação industrial. No caso do Ouija, o “como fazer” (setup físico e modo de operação) foi o que tornou a experiência padronizável e comercial.

Prazo e extinção da patente

Na época, a vigência padrão de patentes nos EUA era de 17 anos a partir da concessão (modelo anterior às regras atuais). Na prática, isso significa que a exclusividade associada ao “tabuleiro falante” expirou ainda no início do século XX. Com o vencimento:

  • A funcionalidade básica do produto foi para o domínio público.
  • Concorrentes puderam comercializar tabuleiros semelhantes, desde que não infringissem outros direitos vigentes (por exemplo, marcas ou direitos autorais sobre arte específica).

Essa dinâmica é central à lógica das patentes: um período limitado de exclusividade em troca da divulgação pública da solução técnica, que, ao fim do prazo, pode ser utilizada por toda a sociedade.

Se a patente venceu, por que “Ouija” continuou forte?

Porque outros pilares de Propriedade Intelectual entraram em cena, em especial as marcas e o direito autoral:

Marca registrada 
“Ouija” é um sinal distintivo que identifica a origem do produto (fonte comercial). Marcas podem ter proteção potencialmente indefinida, desde que renovadas e efetivamente usadas para distinguir produtos/serviços.

Mesmo com a patente expirada, terceiros não podem usar “Ouija” (ou variações confundíveis) para explorar indevidamente a reputação associada ao produto/empresa titular.

O controle de marca permite gerir qualidade, licenciamento e posicionamento, mantendo a liderança mesmo em mercados com funcionalidade amplamente copiada.

Trade dress (conjunto-imagem)
Em alguns ordenamentos, é possível proteger o “look and feel” que distingue um produto (conjunto-imagem), desde que esse conjunto tenha adquirido caráter distintivo e não seja meramente funcional.

Essa proteção se volta contra imitações que confundam o consumidor quanto à origem.

Resultado: enquanto a funcionalidade do tabuleiro entrou no domínio público, a marca “Ouija” e sua expressão visual permaneceram como ativos estratégicos, capazes de sustentar exclusividade comercial e premiumização.

Boas práticas se você pretende lançar um produto inspirado no caso

  • Realize busca de anterioridade de marca nas classes corretas e em países-alvo.
  • Avalie desenho industrial para sua identidade visual e embalagem.
  • Caso haja elemento técnico relevante, estude patenteabilidade (mesmo que seja um “pequeno detalhe” mecânico que melhore a experiência).
  • Formalize cessões e licenças com designers, ilustradores e desenvolvedores.
  • Documente seu trade dress e monitore o mercado para coibir confusão.
  • Planeje a estratégia internacional (Protocolo de Madri, prioridade unionista, prazos).
  • Esteja atento a questões de conformidade e rotulagem no país-alvo (especialmente para produtos infantis e de entretenimento).


O tabuleiro Ouija tornou-se um emblema de como um produto pode transcender a proteção patentária inicial e consolidar valor por meio de marcas, design e construção narrativa. Para empresas brasileiras que desejam escalar criações ao exterior, a lição é clara: pense o portfólio de Propriedade Intelectual como um ecossistema integrado, a patente abre caminho, a marca sustenta a presença, o design distingue e a gestão coerente dá perenidade.

Se você deseja avaliar riscos, viabilidade de registro e uma estratégia de proteção e expansão para o seu produto, podemos apoiar com diagnóstico, buscas de anterioridade, depósito e acompanhamento no Brasil e nos principais mercados internacionais.

Foto de Edilaine Barbosa

Edilaine Barbosa

Graduada em Publicidade e Propaganda pela Universidade Veiga de Almeida (UVA) e pós-graduada em Copywriting. Especialista em desenvolver estratégias de comunicação alinhadas aos objetivos da marca, com experiência na produção de conteúdo para blogs e redes sociais.

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